quinta-feira, 5 de abril de 2012

O Paraíso existe!!!

imagens de André Calado
O Paraíso existe, fica em Alagoas, a 33 km ao sul da capital, Maceió, e é mais conhecido como Barra de São Miguel. Local de veraneio dos alagoanos, a Barra de São Miguel é de uma beleza esmagadora. A praia do Gunga, eleita pela revista Veja como uma das dez mais belas do Brasil, localiza-se próxima à cidade e pode ser acessada por barco ou carro.

imagens de André Calado
A variedade é um dos atrativos deste local privilegiado, lá é possível a prática do surf, pesca esportiva, banho de mar com ondas e sem estas, mergulho livre, enfim, quem manda é o “freguês”.

imagens de André Calado
Na Barraca do Manoel, se pode aproveitar o delicioso banho de mar devido à proteção dos bancos de corais e, na maré baixa, ainda é possível nadar até estes e observar a grandiosidade e beleza da vida marinha. O local é o point da “galera” que no verão fica até o pôr-do-sol e depois se encontra na cidade ou na casa de alguém.

imagens de André Calado
Bem servida em infra-estrutura, possuindo um supermercado de uma rede local e ótimos hotéis, a Barra de São Miguel serve bem a seus visitantes e no verão aumenta esta serventia com a Vila Nikin, local que funciona como um centro comercial, gastronômico e de diversão, acolhendo lojas de grife, lanchonetes e boates. Localizado às margens do rio Nikin, do qual herda o nome, o empreendimento é um exemplo do potencial local e que só vem a agregar pontos positivos gerando emprego e renda durante a alta temporada do verão.

imagens de André Calado
Quem desejar obter um pedacinho do paraíso deve correr, pois, em breve, os terrenos ou condomínios serão raridades.

No próximo verão se programe e venha conhecer, ainda em vida, o paraíso tropical da Barra de São Miguel, pois assim você poderá especificar a Deus como quer sua morada eterna.


André Calado.

Engenheiro, residente em Maceió, e possui algumas colaborações no site Overmundo.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Trabalho para mãos que vêem


“Trabalho para mãos que vêem” é um projeto bem interessante cujo objetivo pode ser sintetizado numa palavra: tocar. Trata-se de aplicações de shiatsu, em locais públicos, realizadas por deficientes visuais. Esse projeto, em andamento há algum tempo, já passou pela drogaria Gutemberg, pelo shopping Plaza, shopping Boa Vista, pela prefeitura do Recife e hoje conta com o apoio do shopping Paço Alfândega, onde permanecerá ao menos por um mês. O projeto é coordenado pela Associação Pernambucana de Cegos, e visa adotar a prática do shiatsu em lugares de grande movimento e por onde passa diariamente um fluxo importante de pessoas , de todas as idades e classes sociais, que podem dispor de um pouco do seu tempo para cuidar do bem-estar orgânico. O Veneza de Brasileiros conferiu, in locu, a implantação do projeto e entrevistou um dos massagistas, senhor Arão Júnior, deficiente visual, que além do shiatsu lida ainda com a área de informática. Segundo ele , o shiatsu vem da junção dos vocábulos japoneses shi e atsu, dedos e pressão respectivamente. “Nós trabalhamos com movimentos de pressão sobre a escápula, cintura escapular, a região da coluna, inteira, atuando também no pescoço e na cabeça, ativando a oxigenação do córtex cerebral, por exemplo. Para ele, todas as funções fisiológicas são beneficiadas pelo shiatsu, o que proporciona um melhor ajuste do organismo, mitigando o stress cotidiano em seus sintomas mais externos, como a tensão muscular, até desconfortos intestinais, pois trata do corpo como um todo. 

Para aqueles que pensam a massagem como algo supérfluo, Arão responde defendendo o shiatsu como uma necessidade do organismo: “ Com a pressão externa das mãos, o corpo libera a endorfina que é a substância do organismo responsável por aliviar as dores.” Ainda conforme seu relato, o shiatsu também mexe com a adrenalina, hormônio das emoções, o que faz com que algumas pessoas tenham reações extravagantes como até chorar durante a terapia , sorrir em demasia ou sentir dor.

Para iniciar-se nos mistérios do shiatsu, todavia, não é tão fácil como pode até parecer. O senhor Arão, assim como todos os seus companheiros massagistas, tiveram de freqüentar em torno de cem horas de aula prática além de matérias teóricas sobre fisiologia, anatomia e psicologia, com um aprofundamento também na teoria do associativismo. Esta última matéria prepara o deficiente visual para se relacionar de modo mais integrado com o cliente e entre si mesmos, em grupos, buscando não apenas uma formação científica mas também humana.


Questionado sobre gostar ou não do ofício, ele é taxativo: “ é um serviço muito bom, pois além de melhorarmos a qualidade de vida daquelas pessoas atendidas, nós também temos a oportunidade de fazer novos amigos por onde passamos.” Quanto ao futuro, Arão o vê de forma otimista: “o próximo passo talvez seja conquistarmos um espaço em clínicas e hospitais onde há uma necessidade muito grande dessa forma de tratamento.”

O grupo já esteve numa grande fábrica, em Suape, tratando os sintomas mais diretos do stress no labor. A Associação Pernambucana de Cegos oferecerá uma próxima turma sobre shiatsu e mantém atualmente cursos básicos de computação operacional e internet, os deficientes visuais contam com softwares específicos para atender suas necessidades, como um decodificador através de sinais sonoros.

Sobre o preconceito, eles têm de matar um leão por dia, pois como trabalham nos mais diversos ambientes são muitas vezes abordados por curiosos incautos. Um desses curiosos , exemplificativamente, veio até eles após a nossa entrevista, com a pergunta clássica: vocês são cegos e fazem massagem? ( em tom de estupefação ). E a resposta veio na ponta da língua: “nós fazemos massagem com as mãos, não com os olhos.”

Por essas e outras, dá para se ter uma idéia de como ainda somos subdesenvolvidos e temos muito o que aprender com os deficientes, em termos de associativismo.
Shiatsu
(quick massage )

ARÃO JÚNIOR ( TEC. MASSAGEM EXPRESSA )
33752316/88068942
araojose@oi.com.br


SEBASTIÃO MENDES (TEC. MASSAGEM EXPRESSA )
33718893/96215371


Texto de Marcos André Carvalho Lins
Imagens de Osvaldo Barreto

Criança no Paço: ateliê Fátima Manzi

Ateliê Fátima Manzi
Há dezoito anos, Fátima Manzi iniciava um trabalho utilizando-se da arte para suprir as necessidades da criança com dificuldades de aprendizado, crianças que simplesmente não tinham prazer no estudo, dispersas ou alheias ao conteúdo ensinado na sala de aula. Fez diversos cursos e pesquisas no intuito de melhor ajudar crianças com défict de aproveitamento escolar. Observou que a arte é um canal importante no melhor aproveitamento do potencial infantil em todos os campos de desenvolvimento, trazendo mais tarde benefícios também para aquele ser enquanto adulto. Ela narra um acontecimento interessante: quando sua mãe teve a amputação de uma das pernas diagnosticada como necessária, ela escutou apenas uma voz entre os médicos destoar da maioria, essa pessoa acabou por minimizar a intervenção e através de uma micro-cirurgia tornou a amputação desnecessária. Buscando respostas para aquele fenômeno, ela descobriu que aquele médico também era artista plástico. Ao seu ver, a experiência artística permitiu uma melhor avaliação do quadro de debilidade da sua mãe, pois o artista, para ela, desenvolve uma plasticidade cerebral que lhe permite um melhor exercício de suas funções não artísticas.
Ateliê Fátima Manzi
Há três anos atuando no Paço Alfândega, Fátima exerce, num espaço cedido pelo shopping gratuitamente, um trabalho com crianças de todas as faixas etárias e também com aquelas denominadas especiais. O trabalho se desenvolve em forma de cursos, sempre aos sábados, de uma às sete da noite, ou aleatoriamente, por meio do que ela chama de vivências (às sextas , sábados, domingos e feriados ). Cada curso tem a duração de seis horas e ocorre durante um mês de acordo com disponibilidade dos pais das crianças, que podem optar por fragmentar a carga horária em dois , três ou quatro sábados. As vivências, por sua vez, têm a duração de uma hora e custam dezoito reais.
Ateliê Fátima Manzi
Nesse projeto CRIANÇA NO PAÇO, Fátima Manzi procura despertar na criança o engajamento nas mais diversas formas de arte, utilizando de materiais por vezes requintados, tais como argila, mosaicos, telas, espátulas,etc. O objetivo, segundo ela, é fazer a criança se sentir um artista de verdade, com todo um arsenal a mão , para que ela mesma defina, de que maneira, e qual o material mais lhe apetece. A criança se sente estimulada e desafiada em contato com uma gama tão variada de objetos, texturas e cores. Os ganhos, num trabalho como esse, e quando há um mínimo de continuidade, são imediatos e são logo percebidos pelos próprios pais, em termos de aprendizagem, estudos, concentração, redação, etc. A criança especial, por seu turno, é, principalmente, estimulada, segundo Fátima, contando com, além de todo um aparato artístico, uma orientação pedagógica da própria Fátima de modo a conhecer ambientes e materiais aos quais ela não tem acesso no seu cotidiano.“Ninguém entrega um pedaço de pedra sabão para uma criança especial esculpir , por exemplo, aqui nós fazemos isso.”- diz Fátima Manzi.
Ateliê Fátima Manzi

O sonho de Fátima Manzi é levar a arte para todos e desmistificar o seu aspecto elitista. Hoje os adultos são atendidos apenas em cursos específicos , com hora marcada.
Ateliê Fátima Manzi

Há oito anos ela experimentou o fascínio e a surpresa de crianças de rua pelo seu trabalho artístico durante um curso numa grande livraria. Desde então, a sua busca incessante é de transmitir sua arte nos recantos menos favorecidos e trabalhar a criatividade também das crianças mais carentes. O grande problema é o custo operacional do empreendimento: “você levar um papel para uma criança, não vale a pena, de papel a criança está cheia. Mas leve pra ela uma tela, a reação será outra!-conclui Fátima, reafirmando sua vontade de tornar o mundo de crianças de todas as classes sociais mais cheio de vida, pleno em oportunidades, em arte e artistas para todos os gostos.

Fátima Manzi é artista plástica e pedagoga

Criança no Paço
por Fátima Manzi

De sexta a domingo, das 13h às 19h
Cursos especiais para adultos
Festas de aniversário
Curso de férias, em janeiro, de quinta a domingo.
Rua Alfândega, 35 - Bairro do Recife. Recife - PE
Telefone: 81-3419-7500


www.pacoalfandega.com.br


Texto de Marcos André Carvalho Lins
Imagens de Osvaldo Barreto

Maceió, minha sereia

Imagine você mergulhando no azul piscina do mar de Pajussara, deixando o sol bater no seu rosto, vendo as jangadas partindo para o mar para pescar... Como diz a famosa música de Maceió... Uma experiência única que não deixa a dever a nenhuma praia do mundo, ao contrário, o mundo é que deixa a dever a Maceió.
André Calado
Maceió, minha sereia

A orla marítima de Maceió, no trecho das praias de Pajussara, Ponta Verde e Jatiúca, sofreu recente reforma por parte da prefeitura, valorizando ainda mais as belezas presenteadas aos alagoanos, como uma moldura valoriza uma pintura. Hoje passear na pista de cooper, ou na ciclovia, tornou-se melhor, pois a estrutura atual é digna de aplausos. Durante o passeio tente parar na Barraca Loupana, ela possui hot spot, tornando possível registrar por e-mail, no momento exato, a sua emoção de ver o maravilhoso pôr do sol naquele local. Outras barracas são, também, excelentes, pois a liberdade dada aos proprietários torna a variedade mais uma atração. Por exemplo, na barraca do Clube do Pirata, o ótimo atendimento dos garçons e a cerveja acompanhada de um churrasquinho no espeto ou caldinho de feijão (qualquer outro item do cardápio será igualmente apreciado) fazem o tempo voar junto com a fantástica brisa vinda do mar e aquele cheirinho de maresia inconfundível.
Maceió, minha sereia

Com o investimento na infra-estrutura da orla, a prefeitura incentivou os comerciantes do local a fazerem o mesmo. Um ótimo exemplo é a, supra citada, barraca Loupana que, além da internet wireless disponível, tem uma escuna, pronta para passeios, ancorada em frente à mesma. Contudo, a tradição ainda reside em Maceió, quem não for comer a acarajé, em frente ao Clube Alagoinha, não sabe o que vai perder. A prenda culinária foge da receita baiana, mas é muito saborosa. O local, aos sábados e domingos, torna-se o ponto de encontro de diversos grupos e de turistas.

Maceió, minha sereia

A viagem gastronômica não para por aí, na orla pode-se apreciar pizzas, crepes, culinária local, italiana, enfim, a diversidade é a lei. Outro local fantástico é o Foca Beer, esse é mais requintado, porém é um ótimo local para tomar um chope e papear, localizado em frente ao mar na orla da Ponta Verde, uma das áreas mais valorizadas de Maceió. Pertencendo ao grupo Famiglia Giulianno (que além do Foca Beer e do restaurante Famiglia Giulianno tem a Spettus Steak House) recentemente mudou de proprietários, sendo adquirido pelos donos da já citada Loupana.
Maceió, minha sereia
Porém não quero fazer propaganda de ninguém e sim de Maceió, então, ao vir aqui, escolha o local que mais lhe agradar e fique certo que provavelmente sairá satisfeito, louco para voltar e experimentar outras opções.
Texto de André Calado.
Engenheiro, residente em Maceió, e possui algumas colaborações no site Overmundo.

Danniel Boone:

Para aqueles que acham que produção de espetáculos é apenas facilidades para entrar e sair de um palco, Danniel nos mostrou o outro lado. Primeiro tem de haver uma tendência natural. Fundado recentemente na faculdade Estácio de Sá ( RJ ), o curso de graduação em produção cultural (gestão, organização e promoção de eventos) busca a absorção de pessoal, graduado nessa área, pelo mercado, contando como principal obstáculo justamente a ausência de uma vocação em alguns recém-graduados. “ além de gostar do que faz, tem que ter o molejo próprio da área, tem que saber lidar de imediato com os problemas quando eles aparecem, no decorrer de uma turnê , por exemplo.” Argumenta ele. Danniel , que não teve formação especializada alguma, adentrou o terreno pelo próprio impulso familiar, mais exatamente através do tio que lhe passou o ofício e com o qual trabalhou durante algum tempo. Com 12 anos no mesmo batente, Danniel diz gostar muito do que faz e não deseja abandonar o campo de produção tão cedo. Entretanto, ele reconhece que a profissão abre um leque enorme de possibilidades.

Conseguimos arrancar dele algumas curiosidades desse segmento tão cercado por mitos e lendas que é o setor do show business. Ele nos relatou , por exemplo, que não é apenas ser músico e sair por aí tocando. Para exercer a profissão de músico, o cidadão tem de passar numa prova seletiva, paga, e, de acordo com o caso, se enquadrar numa das categorias: músico teórico ou músico prático. A primeira alcunha, que vem expressa na carteira da OMB, Ordem dos Músicos do Brasil, diz respeito àquele músico capacitado para ler partituras, enquanto os músicos práticos diferem por adestrarem instrumentos apenas de ouvido. Tanto um caso como o outro, porém, não são separados na vida profissional, a distinção é meramente introdutória no universo musical, não repercutindo na carreira do músico.

Há quem deixe de diferenciar o empresário do produtor. Trata-se de um engano comum, para Daniel, mas a realidade é bem outra. Enquanto o empresário ajusta apenas verbalmente ou no máximo utilizando-se de um padrão de contrato simplificado, a apresentação do artista em alguma data específica num determinado local, cabe ao produtor correr atrás dos detalhes que vão desde a parte mais burocrática até a viabilização de translado, refeição para toda equipe, hospedagem, etc.O empresário é quem aparece, mas o produtor é quem dá funcionalidade e articulação ao empreendimento artístico. Portanto, o empresário faz as vezes de anfitrião mas quem dar a festa é a equipe de produção. Não obstante, e não poderia ser de outra forma, o “dono dos contatos” é quem fica com a maior fatia do bolo, recebendo uma porcentagem sobre o valor do contrato. Um bom empresário (diferentemente do produtor) , segundo Danniel, pode lucrar até mais de cinqüenta mil reais por mês, podendo esse valor adquirir proporções mais vultosas quando se fala em vender shows para outros países, como a Europa, onde a cultura latina , em geral , é muito bem acolhida.

“E não pensem que tudo são flores, mesmo para os grandes nomes da MPB brasileira”, diz Danniel. Mesmo recebendo o pagamento geralmente antes de realizar o show, uma parte bem antes e a outra um pouco antes de subir ao palco, o cantor ou músico pode sofrer nas mãos de mal pagadores. Durante sua trajetória profissional ele já assistiu a muito dono de estabelecimento vender casa ou carro para honrar compromissos.(isso obviamente quando o cachê do artista não está atrelado ao resultado da bilheteria ). Para os artistas mais iniciantes ou com um público mais restrito, o que ocorre é um acerto entre contratante e contratado que nunca ultrapassa menos de um meio a meio em termos de bilheteria. “ cinquenta a cinquenta se faz show por amizade, o comum é setenta ou oitenta por cento da bilheteria para o artista.” Completa Danniel. E acrescenta: “o consumo em geral é da casa.”

Danniel também nos participou ter sido enganado num plano muito bem arquitetado por um suposto contratante. O homem , bem vestido e de boa aparência, chegou a receber a equipe de produção no hall do hotel Copacabana Palace , exigindo inclusive garantias. Depois de divulgado o show e vendida uma boa parte dos ingressos, o homem desapareceu no mundo. Resultado: o artista , teve de realizar uma via crucis explicando ao seu público exatamente o que ocorreu e declarando sua total boa fé no caso. Sabe-se que esse mesmo senhor é reincidente em falcatruas desse tipo, mas até hoje não se conhece o seu paradeiro. “ provavelmente continua se utilizando da mesma armação” , conclui Danniel.

Danniel Bonne Travassos de Freitas Pinto, é pernambucano, natural de Garanhuns, e no momento reside no Rio de Janeiro.

www.mpbproducoes.com.br

Texto de Marcos André Carvalho Lins

BORATCHO

Esse espaço do Veneza de brasileiros apresentará, uma vez por mês, ao menos, uma reportagem com o que de melhor acontece no cenário brasileiro no campo cultural, de entretenimento e eventos. Tentaremos focar o que é mais interessante , ou seja, o que pensamos ser do gosto do leitor internauta , mostrando sempre uma alternativa rica de lazer ou de mera descontração. Aqui trataremos desde bares e restaurantes até passeios e festas que fazem parte do circuito nacional e contribuem, de alguma forma, para impulsionar a cultura brasileira em seus mais diversos segmentos.


Abrindo esta série de enfoques sobre vivência cultural, o Veneza de brasileiros destaca agora o setor gourmet e credencia o restaurante “Boratcho” como uma ótima opção de escolha para uma noite especial.

O Boratcho, localizado no bairro do Pina, Recife, Pernambuco, Brasil, apresenta um diferencial importante. Além da culinária típica mexicana e do ambiente confortável, o restaurante/bar possui shows acústicos de artistas da cena pernambucana tais como Silvério, Ortinho, Mônica Feijó, Choro Brasil, Bendito samba, Seu cafofinho e suas correntes, Jimbo blues, Latin jazz, Pé na estrada, DJ Dolores, A cubana com Edinho Jacaré e Valdi Português, Digital Groove, Magia negra, Olivastan, entre muitos outros, não menos significativos. Há cinco verões a casa conta, ainda, com o denominado projeto SEM NOÇÃO , formado pelos dee jays Bahiano,Tchêras e Renato L, que, juntamente com um convidado, enriquecem as noites de quinta-feira com o que há de melhor na música da região.

Com a curiosidade que nos é peculiar, conseguimos levantar algumas singularidades desse bar, que já virou parada obrigatória para quem gosta de badalar na noite recifense, como também para aqueles que estão visitando a cidade maurícea. Em primeiro lugar vale destacar o espírito empreendedor dos seus proprietários que, após várias incursões em outras áreas, decidiram criar raízes no coração da cidade. Perguntamos à proprietária, Renata Phaelante: por que escolher este segmento em particular , avançando de imediato no campo da cozinha mexicana? Ela atestou a sua vontade, há muito, de enveredar pela noite e o ramo gourmet. Lembrou que, à época, pensando sobre o assunto, tomou ciência de um restaurante mexicano, Viva Zapata, em Olinda, pertencente a uma amiga, que havia fechado suas portas e deixado carentes os residentes do grande Recife daquele tipo específico de culinária. “ daí o motivo de fazer um bar mexicano” , arremata ela. Segundo ela , ainda, o restaurante conquistou um público cativo com o tempo e a divulgação é, em sua maior parte, feita de amigo para amigo, na base do boca a boca. Tendo grande importância nesse aspecto os eventos ali promovidos que acabam por renovar o público, oxigenando a casa de fiéis contempladores da boa mesa e da boa música. Ela acrescenta que o público é na sua maioria jovens de vinte a quarenta e cinco anos, possuindo baixa frequência de estrangeiros, mas uma clientela importante de visitantes do sul do Brasil. “ora porque viram na Veja, no guia Smirnoff, no guia Unibanco entre outros guias que indicam o espaço, ou mesmo numa matéria de periódicos locais.” Indagada sobre a longevidade do restaurante numa cidade caracterizada pela instabilidade do segmento, a proprietária ressalta : O Boratcho não é um bar da moda, onde as pessoas frequentam por um ano e abandonam quando surge um novo. Ele é um bar que está sempre se renovando, através de seus eventos, possui um cuidado especial com a música, a comida, em oferecer um ambiente aconchegante, onde a pessoa se sinta bem”.

O boratcho faz o lançamento do seu site www.boratcho.com.br , nesta quinta feira, 08/02 , às vinte e duas horas, com DJ móbil responsável pelas pick-ups, que constitui a maior referência norte-nordeste no estilo electro/house e também do circuito underground das principais cidades, tocando um som de pegada forte, recheado de efeitos , vocais e incrível feeling com a pista. Abaixo reproduzimos uma poesia de autoria de Léo Montenegro, criada especialmente para o bar:


JO SOY UN BORATCHO

Quando älergia, o Dj residente
Coloca seu set levanta defunto e crianças vizinhas
A socialite solavanco bota pra dançar
Na grande janela da continuidade
Que aparece à frente do bar
E no salão em L, dos mais típicos salões.
Estermos sim, a desconstruir a calmaria
conheço de longe as cabeças adoráveis
Conheço o barulho do chafariz
O boneco em uma siesta depois do merengue
E vejo fantasmas vizinhos
que comem espinhos
A sete tequilas depois
E a sete tequilas depois
há canções que animam
Há lugar de vasta luz
O chilli é amassado
Turmas comemoram a praga da vida
E nas festas às quintas
toca a banda dos esculhambados
E ai velhinho, aconteceu.
que ao chegar os tempos das mangas
Uma caiu no muñeco
Despertando-o do telhado
Que atordoado desceu pelo lastro
Pisou o assoalho e gritou
Jo soy un boratcho


Léo Montenegro

Para quem não sabe, boratcho vem do espanhol “borracho” que significa aquele que bebe muito, boêmio.

No site do Boratcho você vai poder conhecer o perfil, o cardápio, saber da programação do bar, ver fotos e manter contato direto dando sua opinião, crítica e sugestões.

Av. Herculano Bandeira, 513 - Galeria Joana Darc - Pina - inf. 33271168

Entrada Franca

Texto de Marcos André Carvalho Lins

sexta-feira, 2 de março de 2012

Instante de reflexão "ESQUECEMOS QUE SOMOS COMO ESCOLAS..."

“ Esquecemos que somos como escolas, hora somos alunos, hora somos professores. Há uma dialética qualquer na vida , e é justamente esse diálogo que nos tornam tão ricos e interessantes. Pois , como diriam alguns, não há ninguém tão sábio que não tenha nada a aprender, nem tão ignorante que não tenha nada a ensinar. Vista por esse prisma a luta de classes supera velhos chavões e dicotomias para assumir uma postura mais essencial. cavamos nossos próprios latifúndios a partir do chão de estrelas que loteamos nos nossos corações. 

Acreditem: a riqueza de cada um está não nas coisas em si mesmas , mas naquilo que as envolvem , naquilo que as tornam realmente importantes!!”

Feliz 2012 para todos!!!!!

Marcos André Carvalho Lins

terça-feira, 17 de maio de 2011

Instante de reflexão

Caminhe com o vento, leve consigo apenas os sentimentos mais leves. pois o amor é uma flor que floresce ao descampado ao luar, assim como a felicidade é aquele pardal que . sem te aperceberes. mirou-te os olhos com ternura e retorna a tua janela todos os dias, em busca da tua atenção.


Marcos André Carvalho Lins

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Instante de reflexão ( de natal)

Nascer é florir na árvore mágica da humanidade, é crescer como parte de um planeta chamado família, é dar frutos sãos e pacíficos todos os dias como uma fonte que se regenera nos subsolos da vida , nascer é sorrir com os lábios imperativos da alma , enfim, cada instante traduz um vir ao mundo diferente pois viver é reinventar-se no desenvolver dos passos... sejamos mais felizes a cada minuto.


Feliz Natal a todos,
Marcos André Carvalho Lins

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Para o esquecimento - Palavra aberta - Amor

Para o esquecimento.
Ao lado esquecido da memória.




Sorri.
Quero respostas dos teus lábios.
Lacônicos.
Monossilábicos.
Universo de sentimentos.
] contradições.
Sentimentos.
Novamente sentimentos.

Quero saber porque beijaste.
Ressentido,
Outro corpo, outra face
Revela-me:
Onde está toda a verdade?
Vaidade. ( nunca maldade )

É injúria saber que pertenceste
A outra cama, leito de tanta
Lágrima baldia


Quem me dera ser uma lágrima
Chorando
Triste em si mesma
Revirando noites
Sem pensar que numa delas
Já não era minha
A vida deitada ao teu lado.

O primeiro passo que aproxima
Separa,
Unta e termina
Frêmito
Do caos das almas...

SOS,
( quando tu me olhas o teu sorriso
Me isenta de mim mesmo, investiga
Algo de desaparecido em mim, uma culpa
Por não estar ao teu lado na eternidade...)

Para esquecer é preciso nunca lembrar.


Marcos André Carvalho Lins

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Palavra aberta


Assim como as palavras, cada pessoa só faz sentido dentro de um texto. É impossível Compreender e amar uma pessoa sem conhecer-lhe cada frase, cada oração, cada parágrafo. A leitura de uma pessoa , portanto, passa necessariamente pelo seu mundo. Sua família e seus amigos. Mas para alcançarmos o mundo do outro, é importante mergulharmos no nosso, é fundamental sabermos quem somos para que projetemos o que queremos, e descobrirmos de quem gostamos. Uma palavra sozinha não forma uma oração, uma pessoa sozinha não consegue construir e ser feliz. Entendo que o único caminho para a felicidade é o amor, e este por sua vez é o atalho para todas as coisas. A vocação do ser humano é amar, mas amar não é uma palavra isolada, mas um capítulo que vai do início ao fim da existência humana. Cada pessoa é uma Bíblia que precisa ser lida com o coração e o coração de um homem é seu mundo. Amar não é um fenômeno, mas a regra. Não amar é uma utopia, pois até no ódio impera o egoísmo, que não deixa de ser um amor mal conduzido. Na dialética da vida, o embate entre amor e egoísmo resulta sempre em algo positivo, pois o amor, tal qual na novela, vence sempre. Viver não é uma necessidade, mas um eterno exercício de construção de si e do outro. Se o homem é produto do meio, o inverso é verdadeiro. Transformar é construir o homem a partir do seu meio, através do amor.


Feliz ano novo a todos!

Marcos André Carvalho Lins

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Amor
(A JEAN CARLOS,
BJ)



Ele já descansa na tua alma como um passarinho,
Já é parte do teu pensamento,
Do teu corpo, do teu ninho
Não ocupa um lugar: é o próprio espaço...

Separar,
É deixar partir, algo que quer ficar
É mandar sair, algo que quer permanecer, estar
Parte de ti.

Um sorriso de menino
Que agora carregas apenas no olhar,
Um momento, um instante
Um dia que te pertence, uma vida ausente...

É preciso permitir se ir, levando...

Marcos André Carvalho Lins

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

DIURNO, DESPERTAR, O CHÃO DE GIZ.


DIURNO

O SOL, DE SOLIDÃO
O CÉU, DE SERVIDÃO
O MAR, DE ORGULHO E PAIXÃO
O VENTO, DE ADEUS, ATÉ UM DIA...
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DESPERTAR

Seus olhos percorriam o cômodo, amedrontados e curiosos. As mãos, mais sutis, apalpavam as estruturas metálicas e os tubos que pareciam ir do nada a canto nenhum. O quarto do esquecimento, era assim que imaginava o inferno, algo como trancar-se e jogar a chave fora. Aquilo, porém , não sentia como fruto de maquinações pueris ou filosóficas. Tratava-se de realidade demais para um devaneio, verdade demais para se apreender apenas com um pensamento.

Sendo ou não um sonho mau, ele precisava acordar. Não que estivesse dormindo , mas os objetos estavam além do seu alcance e não distinguia bem se estáticos ou se estavam girando em torno dele como planetas em redor do sol. De alguma maneira, sóbria ou alucinada, situava-se no centro de toda uma parafernália cinzenta e distante, embora fosse capaz de tocá-la com a ponta dos dedos.

Arriscou desprender um som com o esforço labial máximo possível a vista de tantos apetrechos tolhendo-lhe a fala. Assim mesmo algum ruído sangrou de suas cordas vocais e tomou a forma de um chiado suavemente audível.

Uma moça surgiu a sua frente e precipitou-se com os olhos arregalados sobre ele. Desapareceu no mesmo átimo de segundo em que apareceu. Seria Eugênia ? As feições correspondiam às suas lembranças.

A última vez que estivera com Eugênia fora durante uma recepção em sua casa de praia. A dança à beira da piscina com o vento sussurrando baixinho as sua sortes “ para sempre juntos” . Inesquecível para ele. À memória veio-lhe também a echarpe da namorada caindo oportunamente na piscina. Ele mergulhou , então , no seu encalço. À tona, com o pedaço de pano entre os dentes, entregou-lhe à borda como um cachorrinho. Arrancou-lhe gargalhadas e mimos como se faz a animaizinhos amestrados.

Assustados, cercavam-no agora, meia dúzia de pessoas. Algumas se distinguiam por utilizarem vestes sóbrias. A euforia tumultuava o ambiente e deixavam-no ainda mais confuso. Atônito, ele sibilava, procurando um meio qualquer de conter aquele rebu. Não entendia porque tantos desconhecidos, por unanimidade, decidiram ir de encontro à regra estampada na parede. Uma mulher distinta com um gesto adequado sinalizava pedindo silêncio.” Espere!” – atinara de repente- “ Uma enfermeira!”
Estava num hospital, concluíra. Não estava morto ou alheio a tudo. Discernia aos poucos as figuras e os conteúdos. As vozes, estas entoavam aos seus ouvidos de modo familiar.

Feliz, passara a etapa seguinte: a liberdade. À medida que lhe eram retirados os tubos, seu corpo sentia-se aliviado. Um reles café da manhã gozava ao seu paladar do mérito de um farto banquete. Um mero copo de leite inundava-lhe o organismo como um vinho do porto da melhor safra.

A luz do dia inaugurava uma nova formulação de viver que não estava contida em frases ou textos inteiros, mas numa mísera manhã de ócio. Suas revisões filosóficas precisavam ser divulgadas e ninguém melhor do que Eugênia para a tarefa. Todos estavam ali, menos Eugênia. Perguntou aos pais pela namorada inúmeras vezes. As respostas sempre deixavam a desejar, não o confortavam muito.

No seu último dia de permanência entre doutores, seu pai deixou ao lado, na cabeceira, um jornal com a foto de Eugênia impressa. Ele nunca soube se por descuido ou intencionalmente. O fato é que o pai abrira-lhe uma janela de dor e culpa. Um caminho que o fazia sentir vontade de nunca ter despertado, de jamais sequer ter nascido.

Estava tudo no papel em letras garrafais: ele foi o responsável pelo acidente, estava alcoolizado, e o pior Eugênia vinha no banco de passageiros. Ao contrário dele Eugênia não saiu do coma e teve a morte cerebral sentenciada.

Num esforço além do permitido pelos médicos, ele ousou levantar-se e dar alguns passos até a janela. Inspirou profundamente. O ar manhoso que lhe invadia os pulmões deu-lhe um acalento e o empurrão necessário para entreolhar o que seria o resto de sua vida. À mente vinha-lhe a respiração de Eugênia num melódico “para sempre juntos .“

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O CHÃO DE GIZ

AS ONDAS CONFESSAM
LEVARAM TEU CORPO DALI
PRA LONGE, TÃO LONGE
DO CHÃO DE AREIA PARA O CHÃO
DE GIZ

AS ESPUMAS ENCOBREM
TEUS RESTOS DE VIDA
PISCAS UM OLHO
ENQUANTO O OUTRO ABSORTO
MAIS PERTO DE MIM

AS ÁGUAS SALGADAS INUNDAM
TEU ROSTO
E TUAS LÁGRIMAS PARECEM
SOZINHAS A CHORAR

CRIANÇAS BRINCAM EM TORNO DE TI
RISCAM O CHÃO
O CHÃO DE GIZ... 


Marcos André Carvalho Lins 
É bacharel em Direito formado na Universidade Federal de Pernambuco e ocupa o cargo de Técnico Judiciário Federal no TRT -6a Região (Pernambuco), sendo também escritor diletante.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Escrevendo a lágrima á sombra. (Um conto, duas poesias)

À Sombra

Aguardava embaixo de um exuberante carvalho , ou seria uma bananeira ? Não prestei atenção, para dizer a verdade, mas isso é o que menos interessa. O fato é que eu esperava, à sombra, o carteiro com o diário oficial. Meu nome deveria constar entre os primeiros colocados do concurso para escrevente. Área que, se não me causava furor, também não me trazia grandes dúvidas. Na realidade, era indiferente. O que importava era o pecúlio certo no final do mês e , finalmente , a realização de um sonho : o casamento com Doraci . Moça formosa, de encantos mil e cheirosa como uma rosa.

Ali estava eu, ansioso pela chegada do malote de correspondências que viria àquela hora da capital do estado. A prova, havia realizado com esmero e o gabarito, conferido, deixava-me numa excelente posição em relação aos demais candidatos. Alguém me perguntará como alcancei com tanta certeza uma conclusão dessa natureza. A resposta é bem simples, verifiquei comparativamente as minhas respostas com as do Elizeu, notoriamente um dos maiores valores de Rio Grande, e, sem dúvida , meu mais importante concorrente. Consegui três pontos à sua frente , três quesitos corretos meus e incorretos entre as soluções dele . Aquilo me deixou eufórico e preencheu-me de esperanças e sonhos.

Divagava com Doraci, entrando na igreja toda de branco, com o champanhe depois do casório, com a casinha que compraria financiada por uma instituição pública e com os rebentos, muitos deles, fazendo da minha vida um eterno paraíso, recheado de anjinhos e de uma santa . Doraci podia ser assim adjetivada. Uma santa. Vivia abnegada à família de pai, avô doente e dois irmãos “pinguços”. As situações vexatórias, por que passava , não eram poucas, mas mantinha muita fé em Nossa Senhora e no senhor Jesus. Apenas dessa forma, por meio da religião, arrebanhava forças para enfrentar todos os dilemas familiares. Toda aquela dedicação exagerada aos parentes, encerrar-se-ia, porém, depois das bodas. Não obstante, prometi-lhe, e não poderia ser de outra maneira, que seu pai e seu avô residiriam conosco. Os irmãos, por seus turnos, teriam de correr atrás de sua mantença , visto que , eram, até aquele instante, sustentados pela irmã. Não seria fácil desgarrar Doraci dos demais irmãos, pois havia laços de afeto fortes que os uniam. Entretanto, ela prometera deixá-los cuidar de seus narizes e me seguir , provavelmente, rumo à capital.

Todas aquelas vantagens de ser um servidor público transitavam pela minha mente, enquanto se demorava o meu futuro colega, servidor dos correios, a despontar naquele ponto do percurso. Ele desceria do ônibus leito exatamente naquele extremo da cidade e eu tinha de recepcioná-lo à altura da notícia que ele detinha em mãos, cujo teor, praticamente, traçaria uma linha divisória na minha existência , definiria um antes e um depois daquele momento.

Escorado o corpo no cajueiro ( ou seria uma bananeira, não sei ) adormeci. Entre meus sonhos desfilava Doraci, quase nua , num dos nossos banhos de rio onde ela, sutilmente, permitia-me tocar os bicos dos seus seios dourados e levemente umedecidos sob a camiseta solta. A primeira vez deu seqüência a muitas outras que, no entanto, nunca me encorajaram a ir além. Mas como era linda minha Doraci, olhos profundamente negros como aquela parte do rio onde desfrutei , ainda moleque, minha iniciação no terreno movediço do amor. Embora, sem jamais tê-la tomado em meus braços e a possuído, sabia desde sempre que ela seria minha eterna companheira com a qual partilharia todos os meus projetos dali por diante. Doraci acomodou-se no meu coração , e eu no dela, de modo quase casual , intuitivo, amor à primeira vista como costumam denominar comumente. Eu sabia que era dela e ela sabia que era minha. Jamais questionamos isso, desde aqueles sensuais namoricos no riachinho.

Ao despertar do meu sono lascivo, escutei um barulho esquisito, vindo do centro da cidade. fogos. uma festa, cujo epicentro se desenrolava na casa de Elizeu , meu amigo e antagonista . Aproximei-me e reconheci meus vizinhos , moradores das redondezas, cercando o jovem Elizeu como a um grande herói. Pensei comigo: se ele passou no concurso, eu também passei! Corri para casa saltitante e envaidecido. Pretendia ler meu nome escrito no diário oficial e sublinhá-lo para mostrar a Doraci.

Quando desemboquei no terraço do meu lar , encontrei com Doraci, aos prantos, com o jornal no colo, aparando-lhe as lágrimas. Abri um sorriso e disse em tom triunfante:

- Não chore, meu bem. Contenha essa emoção para as núpcias.

Ela olhou-me no rosto por um segundo e tornou a chorar. Minha mãe veio então ao meu encontro e esclareceu: eu não havia passado, o meu nome não constava da lista de aprovados.

Dirigi-me ao meu quarto em silêncio, deitei na cama, envergonhado. Senti o peso de todo o firmamento sobre meus ombros. Meus olhos embaçaram, mas não soltei um gemido. Passei vários dias comendo e falando pouco. Recuperei-me, lentamente, e no ano seguinte passei no vestibular para medicina, campo de trabalho que sempre me encheu as vistas.

Para cursar medicina , fui morar na capital,enquanto Doraci permanecia no interior. Não nos casamos , mas guardo boas recordações dela.

Na época, correu na cidade, à boca pequena, que a aprovação de Elizeu eram favas contadas, uma manobra , em se tratando de um sobrinho de desembargador. Não me perturbei.

Hoje sou feliz, do meu jeito, como , aliás, talvez não fosse, se tivesse ocupado um cargo público.

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Escrevendo.

Escuta a vida,
Quando embriaga a noite infinda
Zênite da lua errante

Teu nome grita,
À garoa fina
Luz, sombra e sangue

Sobre papel,
Tinta:
A mácula de idas e vindas

O céu freia,
O mundo pára,
Perde-se o novelo de sílabas

Na nudez fosca de uma página...

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Lágrima

Marés íntimas
Levam a m´gua
Insípida do tempo

Amálgama d´alma
Silêncio...



Marcos André Carvalho Lins é
bacharel em Direito formado na Universidade Federal de Pernambuco e ocupa o cargo de Técnico Judiciário Federal no TRT -6a Região (Pernambuco), sendo também escritor diletante

Textos-literatura

O corredor

Imaginava de tudo ao final do corredor. Desde pequeno, tinha receio de atravessar aquele corredor. No escuro. À noite. Muitas vezes não tinha sono, mas não ousava aquele trajeto imaginário, não ultrapassava a porta do seu próprio quarto. Quantas vezes encontraram-no dormindo dentro do armário? E quantas vezes deixava de sobre-aviso a lâmpada do aquário? Tantas e incontáveis. A infância tem dessas coisas. Agora, adulto, dono do seu nariz, caminhava encapuzado pro destino que deveria ser de outro.

Ou outra?

Não sabia bem quem o havia delatado.

Respondeu com nomes de filósofos. Era doutor em filosofia.

As perguntas vinham na seqüência. O sal nas feridas ardia.

Na clandestinidade, ninguém conhecia ninguém. Nomes falsos. Identidades frias.

O pai de Platão é advogado.

O pai de Sócrates, coronel da aeronáutica.

Ele, pobre Descartes, já se considerava descartado.

Classe média, filho de sapateiro com costureira, criado pela madrinha.

Retornou ao corredor. Tentava, na mente, uma assepsia. Varrer dos próprios pensamentos a dor, com uma ave-maria.

A prece fora, muitas vezes, por sua mãe recitada, nos períodos de agonia. Lembrava da mãe deixando-o, largando-o na casa da tia. Uma ave-maria, rezou ela, antes de entregar a guarda definitiva.

Fazer melhor, ela não podia.

Amém., A dor parecia infinda.

Continuava rumo ao final do corredor, cego, atordoado, definhando por todos os poros.

Ouviu um ranger de motor. Logo após, uma mão o acariciara. Era o último afago materno com o qual para sempre dormiria, fecharia os olhos e recordaria.

O corredor levantara vôo. Não sabia se durante meia hora ou uma hora e meia.

Podia sentir a presença de outros corpos. Um a um tomavam o rumo da porta.

Não estava absolutamente sozinho.

Um empurrão. Tornara ao ventre da sua mãezinha. Apenas pressentiu o fim, durante a ceia de páscoa. Quando sua tia o apresentara à sociedade. Um futuro grande homem – prevenia a todos.

Agora, nadava num útero. O negrume tornou-se uma infinita claridade. As vestes se desfizeram. Ouviu um enorme estampido, uma esquisita sensação de desabrigo.

E a voz da mãe: ave-maria,cheia de graça...

Ceifaram-lhe o cordão umbilical.

Atravessara, pela primeira vez, o corredor até o final.

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Verdades transitórias

A única coisa madura escapou-me, talvez uma pitada de luz ou um bocadinho de escuridão; talvez apenas a lágrima de um palhaço ou um sorriso dissimulado de um prisioneiro qualquer; talvez a fé que, de tanto mover montanhas, cansou; talvez o beijo na amante de um marinheiro em outro porto...

Quem sabe ali, bem no meio do caminho, não há distância suficiente para se enxergar uma paixão doente...Somente existirão estrelas no céu enquanto pessoas as olharem, as observarem, quando lhes viram as costas, provavelmente elas desaparecem. É assim também com as coisas tangíveis ( e as estrelas não são tangíveis? ) , no que as perdemos de vista , não há como assegurar que permanecem ou se extinguem...Não há como prever se uma pessoa acabou de chegar na tua vida ou se ela já está indo embora...Só se pode ter certeza, perguntando-lhe...Mas se a resposta não for convincente como nenhuma de coração o é , de todo, então também não há o que lamentar, pois o que resiste bravamente ao fim e ao início são pedaços de sentimentos perecíveis...

Não há nada mais triste do que aquilo que não existe nem no imaginário dos seres de ficção...Incapaz de se comunicar até por figuras de linguagem e de ser comunicado por estas mesmas figuras...Algo do que não se têm dúvidas, nem afirmações, nem requisitos plausíveis...Mais ou menos como uma sombra no deserto ermo e descampado, ou um vinco no caminho do cetim virgem...

Dentro de nós há um lugar, semi-oculto, semivivo, semi-morto, no qual tudo é possível, até o impossível...

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A testemunha

Incrédulo. Observava a testemunha com um olho raso de prazer e outro a estremecer. Sim. Ela havia assistido a algo horrendo e havia tido a reação natural para casos como aqueles: o surto histérico e nervoso. A minha reação é que me enervara. Nunca me havia ocorrido tamanha satisfação com a desgraça alheia. Encontrava-me compenetrado naquela estranha figura de quase dois metros de altura e nariz aquilino que se desmanchava em lágrimas, rente ao meu birô. - muito bem, senhor, repita, novamente, com mais calma e respirando, respirando, por favor...ele tossiu três vezes , uma tosse esganiçada como a de um cão doente. Tornou a contar a mesma ladainha. Entretanto, traduzida daquela maneira, em tom compassado, parecia algo completamente diferente. Se ele, realmente, presenciara, ou não, tudo aquilo, era tarefa para um investigador dirimir. O fato é que algo de muito suspeito ocorrera sob as narinas daquele senhor.

Já se fazia madrugada, porém, Angélica devia me aguardar na porta do hospital. Não que aquele homem me tivesse subtraído os pensamentos em Angélica, pois apenas nela eu me atinha durante todo o relato. A questão é que eu não podia me despedir , deixando para trás um homem fora de si . Tratava-se de tarefa humanitária e Angélica havia de compreender. Quanto a isso não me restavam questionamentos.

Sentei , ainda um pouco ímpio, com o homem no sofá vermelho e procurei palavras para restabelecer a normalidade entre nós. Nem eu podia ficar ali, estatelado, escutando o mesmo discurso mais um par de vezes, nem ele podia sair dali, da delegacia, sem uma boa dose de calmantes. Foi o que fiz. Ofereci-lhe alguns dos meus comprimidos e o conduzi, em seguida, até a saída, recomendando-lhe uma boa manhã de descanso. Uma escolta policial lhe daria guarida até sua casa. Nada mais havia por ser feito. Minha doce Angélica tornou-se, por fim, prioridade absoluta.

Quando encostei o corcel cinza em frente ao número quarenta e dois da rua das bananeiras, um rosto suave aproximou.- afinal , chegaste??? Retruquei algo incompreensível e, por estarmos ambos exaustos, não houve qualquer réplica ou contestação. Angélica, simplesmente, entrou no carro e partimos.

Enquanto me encastelava entre os braços de Angélica no nosso leito nupcial, o estranho testemunho daquele senhor ia e vinha à minha mente como um iôiô ideativo. Ora despertava-me ojeriza , ora dispensava aos meus instintos um tratamento bem mais complacente. O medo estampado na face daquele senhor, de alguma maneira lembrou-me algo que eu optara , há tempos , por varrer do meu repertório de recordações. A morte dos meus pais. Sim. Ele havia testemunhado dois velhinhos inertes entre uma ruela escura e uma grande avenida exatamente à zero hora de uma quarta-feira, dia quinze de maio. Os dois indivíduos em questão traziam as faces dilaceradas e jaziam nus como duas trouxas de roupa suja. Meus genitores morreram em casa, enquanto dormiam, vítimas de inescrupulosos assaltantes.o ponto em comum , além da idade das vítimas, consistia num detalhe: eu também , como aquele senhor, testemunhara os corpos despidos e alumiados pelo encarnado do sangue. Um dos tiros, dirigido a meu pai, desfigurara seu rosto de modo que os dois testemunhos , o meu e o daquele senhor, de alguma forma interpenetravam-se em coincidências.

Um dado, não obstante, eivava a história contada por aquele senhor, entre um levitar de sobrancelhas e um olhar de pavor, de inverossimilhanças relevantes. Quase como um fato extraído de um romance policial já manjado. Segundo ele, aquilo tudo havia sido obra de uma grande e peluda criatura, com, aproximadamente, dois metros de altura e garras afiadíssimas. Elementos impressionantes, se não fossem tão caricatos.

Nada daquela novela policial, entretanto , atravessara a barreira dos meus pensamentos e se aboletara nos ouvidos de Angélica. Àquela altura, ela dormia . Já penetrava em sono profundo, quando eu, delicadamente, desviei seu antebraço do meu tórax e num impulso sutil me desvencilhei do seu colo e subi à borda da cama.

Dei alguns passos até a cozinha conjugada e bebi um copo dágua.
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O dia seguinte não poderia ser mais surpreendente.

Depois de deixar Angélica no hospital, dirigi-me com meu corcel cinza ao meu próprio ambiente de labor. No caminho , deparei-me com um certo tumulto, mais ou menos na vizinhança do meu destino. Imediatamente parei o auto , enfiando-me em meio à multidão que se assemelhava a uma grande massa compacta de transeuntes , bem ali, próxima à esquina da rua dos emboabas. O meu assombro não poderia ser maior, quando presenciei , caída ali na calçada, a minha testemunha da madrugada anterior, completamente ensangüentada e sem pulsação. Minha primeira reação foi conectar-me com a viatura mais próxima por meio do rádio e pedir , com urgência, uma ambulância na área.

O homem , não havia dúvidas, estava morto. A hipótese mais plausível, conforme meu próprio batalhão de perícia , foi a de coma alcoólico, seguido de uma forte pancada na cabeça.

Na casa daquele senhor, que aparentemente morava sozinho, encontrou-se toda sorte de literatura e pôsteres de estórias de terror, incluindo perto da mesa um exemplar de “o lobisomem em quadrinhos ”. Além disso , verificou-se um par de vestimentas , lavadas há pouco, mas que ainda continham resquícios de sangue...
- Não me conte mais nada , investigador

Pois é, as vestes pertenciam ao casal de velhinhos.

Marcos André Carvalho Lins é
bacharel em Direito formado na Universidade Federal de Pernambuco e ocupa o cargo de Técnico Judiciário Federal no TRT -6a Região (Pernambuco), sendo também escritor diletante

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Três textos ficção, três contos para você.



Depois da arte, o pensamento

Pensamento. Passou um voando por entre as veias do artista. Um pensamento-arte ou uma arte-pensamento.Um quinhão de ninfas nuas e despudoradas, uma vereda do mundo que não leva a lugar nenhum, uma música presa entre as grades do presídio.

- Calem ! Eu preciso pensar.

Antes pensar que ir para a calçada mendigar. Antes pensar do que depender da vontade alheia. Antes pensar do que fazer coisa feia.

O pensador-artista, ou o artista-pensador, é quase um autista pensando sobre o amor.

Atravessou a rua com o cérebro embriagado de pensamentos. Pensamentos vorazes em tons sombrios , quase detentos. Pensava a vida em prisões, em celas, em mulheres belas. Pensava a alma e em tudo que se aprisiona no interior dela.

De tanto pensar, não percebeu abrir o semáforo. Parado estava quando buzinadas lhe tiraram de tempo. Estagnou em frente às linhas desenhadas no asfalto. Galgou a calçada, lembrou as vestes listradas dos prisioneiros. Queria mesmo chegar ao final, ao seu intento.

Um ônibus veio-lhe tão próximo e seguia justo no sentido oposto. Mas um caminho, um trajeto, um caminho guarda um retorno.

Adentrou pensando, perambulando em divagações: o lotação da rua serena, número dois.

Sentiu-se preso novamente entre paredes, pessoas pensativas, buscando apoio entre balizas e sofrimento. Pensou na cadeia reprodutiva dos elefantes. Elefantes não esquecem e o pensamento jamais arrefece. O belo rosto da mais delgada jovem veio-lhe mente adentro.

Ela esperava por um período quase perpétuo. Pois, o sentimento é algo assim, pensamento incerto. Tempo de nascer, de crescer, de braços abertos. Punhos cerrados da vida, de quem reside sob o mesmo teto.

Grades são apenas extensões do mundo adverso. O pensamento, a chave para o mais profundo desabrigo.

Já não era o mesmo o pensador nem o artista, pensava
a clausura como protótipo de um futuro triste, onde a semente do amanhã quase inexiste. À margem da sociedade, os seres resistem, mas, quando menos, se cria nas cabeças uma dor perene, espécie de artrite.

Muito pouco se pode fazer por quem está escravo da própria razão e dos próprios sentimentos. A escolha fica por conta daquela que lhe espera: o pensador saiu do claustro e ganhou a face externa.

Ainda podia escutar gargalhadas, zoadas, gritos e grilhões de almas embalsamadas.

Em pensamento orou por todos os reféns dos muros. No presídio a liberdade também prospera: havia no pátio, no vento e na atmosfera, restos de vida, profundas feridas, duras experiências.

O pensador-artista, anarquista, flertou com seres pensantes durante uma tarde. Tornava agora para os braços de sua amada, o pensamento recorrente era de isolamento. Por detrás das portas, dos cadeados, marcas profundas.

A última ilustração veio-lhe sob o busto de sua amada.

Os seres internos, dentro de seus próprios castelos, esgarçam o próprio destino. Não há pássaros cantando, platéia aplaudindo, ou sorrisos, apenas o silêncio de quem pensa conhecer o desconhecido.

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A luz e a sombra


As estrelas, de olhar cálido e terno, se assemelhavam a sua mãe. Em algum lugar, ele podia escutar o sorriso e compreender os pensamentos de sua adorada genitora. Cada passo seu por esse mundo, tinha um pouco de Geninha, como ele a chamava carinhosamente. Ela não o apoiaria naquela decisão, mas parte dele também não concordava. De mais a mais, aquele capítulo já se tornara um grande equívoco em sua vida e a separação se impunha por si mesma. A casa já não era algo que o apetecia, a esposa já não a tinha como dantes. Ela voltara-se tanto para as tarefas domésticas, que conseguira converter-se apenas num luxuoso móvel de decoração, uma poltrona, talvez, às vezes, um criado mudo. Não a via como naqueles tempos tão repletos de memórias. Era fabuloso observá-la nua, vestindo-se para deitar, exibindo-se arteira em sua langerri de seda. Aquelas peças valorizavam-lhe as formas de seus um metro e meio bem distribuídos. Há meses não a procurava, entrara em conflito consigo por não compreender melhor o que não sentia por ela. Por alguma razão, real ou metafísica, seus instintos não mais a identificavam como fêmea. A mulher do Edmar era mais bonita, suas saias, ainda que no joelho, faziam-no elaborar mais fantasias do que sua companheira em trajes íntimos.

Ele precisava lembrar onde e quando tudo teve início. Era necessário vasculhar recordações.

1975.

Era uma noite de festa. Percebera com meros dezoito anos incompletos, uma moçoila de mechas onduladas às pontas e traseiro proeminente ( muito bem empregado, aliás, no requebrar despretensioso com o qual acompanhava a cadência efervescente da orquestra). Naquele ritmo, ela passaria por ele em instantes sem ao menos um número ou um endereço. Entrincheirou-se, então, à frente do salão, aguardando que o seu rebolado a trouxesse até seus braços. Por obra do azar, uma outra pessoa colocou-se entre ele e a destemida dançarina. Não era ninguém menos do que o namorado da pequena fazendo jus ao título e com o qual passou a desfilar durante todo o baile.

Não. Não foi bem ali.

1976.

Ele dirigia o seu táxi atento aos pedestres na calçada. Estava livre e aguardava um chamamento, um sinal. O semáforo avermelhou e a porta bateu repentinamente. Ele encarou o retrovisor e a imagem pareceu-lhe mais sonho que realidade, uma peça que sua visão lhe pregava. Não o era: a dançarina encontrava-se acomodada no banco traseiro do seu automóvel. Trazia as feições pálidas destoando com o aspecto saudável de outrora. Não só chorava muito como repetia, por vezes com brandura, mais adiante com raiva,um nome de três sílabas, para o qual ele não atentou. Mexia o tronco num movimento pendular. A sua inquietação, sua voz rouca e sua retinas em tons abrasivos davam-lhe uma feição ao mesmo tempo, horrenda e singela. Necessitava imediatamente de ajuda médica. Ele ainda perguntou-lhe a razão daquele descontrole, mas ela não parara de recitar a mesma palavra de modo obsessivo. Apenas disse-lhe, a certa altura, um vocábulo parecido com um bairro das imediações. Para lá ele seguiu enquanto a dançarina permanecia numa espécie de transe , incapaz de fazer-se compreender em todo o seu desvario. Novamente o farol obrigou-o a parar. Ouviu apenas a porta do carro estalar e a dançarina desaparecer entre os habitantes daquele logradouro.

Não ali ele não a havia desvendado ainda.

Dezembro de 1976.

Um colega taxista o convidou para uma noitada, a sua namorada traria consigo uma amiga afim de acompanhá-lo visto há tempos ele se encontrar só. O amigo advertiu-lhe, porém, que a tratasse com cuidados especiais pois a pobre passara recentemente por um processo de desintoxicação. Qual não foi sua surpresa quando foi lhe apresentada tal amiga e esta não era ninguém menos do que a dançarina. Apresentava-se tal como a vira pela primeira vez, sem sombras daquela que invadira seu táxi aos cacos.

Sim. O mundo dera uma volta naquela boate. Ela embora não o reconhecendo, demonstrou-lhe a confiança de quem o tinha em grande conta.

Em meio às luzes ofuscantes, os sons delirantes e as trevas incessantes, pouco eles se falaram. Algo brotou nela que ultrapassava a simpatia e atravessou a madrugada trancado no seu peito. A maneira como fora criada não permitia iniciativas da sua parte. Ele, por seu turno, a endeusara sujeitando-a à posição de uma porcelana rara, para qual qualquer ato brusco podia causar fissuras. Esse mito despertara-lhe o fascínio que resultou num pedido de casamento prematuro, mas decidido.

Às três da manhã, eles se despediram do outro casal. Deixaram para trás o barulho enervante da discoteca e tomaram um rumo conhecido apenas por ela. Dobra ali, vai por ali, vira a esquerda – eram suas ordens de co-pilota e única a ter consciência do destino.

O sol estava nascendo quando os dois aportaram numa parcela quase selvagem de praia. Eles se puseram à vontade no capô da brazília. Ela narrou-lhe as suas mazelas com as drogas e acusou seu namorado ( o do baile) pelo seu mergulho, quase sem volta, ao mundo dos tóxicos. O sol se esmerava em tecer o dia como uma costureira que confecciona um grande manto multicores onde cada fio, cada raio solar, tem um pormenor a acrescer aos horizontes de quem está a admirá-lo. Sob a égide do despontar da manhã, fizeram amor e combinaram a união sacramental.

1986.

Nove anos se passaram felizes e plenos de satisfação matrimonial. Ele não poderia apontar os erros , entre os acertos estava uma filha de dois aninhos. Quando veio-lhe a idéia do desenlace, ele estava à varanda e o ocaso estava presente tanto dentro como fora dele.

Como todo aquele sentimento adoeceu, ele não tinha justificativas plausíveis a propor. O fato é que, assim como tudo começou, com a aurora, foi ao entardecer que se consumou o desfecho. Enquanto o negrume tomava-lhe a vista da cidade, o cosmos assistia consternado a sua escolha pela solidão. Anoitecia aos poucos no seu coração.

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Na parada.

Sonhava miúdo. Elaborava pequeno. Quase dois metros de altura, não era pra menos. Ela tinha apenas metade da sua altura, olhos áridos, mudos e luxentos. Olhava-o com certo senão. Ele correspondia , sem qualquer razão. Se achegava sereno, dois metros de altura , fitou-lhe o traseiro, os seios, os joelhos. Avançou dois passos. Ela afastou-se três. Ele piscou um dos olhos. Olhar de cobiça e visual de burguês. Pediu um maço de cigarros no fiteiro. O truque aprendera com um amigo certa vez. As minas gostam de fumantes, passa uma imagem de adulto. Aprendera a dica para perder a cara de bobo: fumaça e pigarro. Novamente tornou a observá-la. Ela carregava uns livros consigo: Paulo Coelho. Decidiu usar de sua cultura e lábia:
- Eu sou o seu início , o seu fim e o seu meio.
- Como? – Ela quis olhá-lo nos olhos, mas uma
nuvem encobria-lhe a face. Além da altura que dificultava a interjeição fluir naturalmente, parecia que ela perdera, por um momento, a pose e ficara ruborizada.

Ele dimensionara bem os riscos: o máximo que receberia era uma gracinha, as mulheres adoram tirar sarro com a cara dos machos ousados. Aquele “como?”, entretanto, não veio programado, era um fator adverso ou um ruído na comunicação, isto aprendera no colégio. Não sabia como reagir ao “ como?” dela. Fingiu que não tinha dito nada, olhou para o céu como quem se pergunta se vai ou não chover. Curioso, todos costumam lhe indagar em forma de chacota: tá chovendo aí em cima ? Ou algo semelhante. Ela parecia querer dizer algo. Não vergou, porém, uma sílaba. Seu silêncio destoava com seu semblante que irradiava curiosidade, inquietude talvez. Um certo receio também.

O quadro não estava a seu favor, já quebrara o gelo e ela permanecia na defensiva. Ela agora o encarava a face com atenção: provavelmente iria perguntar seu nome ou outra coisa. Mas a mira dela estava focada no seu rosto. Sem dúvida pensava de onde viera uma criatura tão alta. Não disseram nada por instantes. Até que ela observou:
- Você não é o filho da professora de
Matemática ?
- Sim sou eu.- Ele respondeu orgulhoso como
quem já era um vitorioso.
Permitiu uma pausa providencial e completou.
- Por que?
- Nada não.
- Como?- foi a sua oportunidade de embaraçá-la.
- Eu não disse nada.
Ele sentiu-se aliviado por não ter conseguido nem
mesmo que ela se incomodasse com seu “como?”. Ao mesmo tempo, dizer que não disse nada, quando disse “nada não”, implicava um certo constrangimento. Talvez ela o tivesse visto há algum tempo, quando costumava freqüentar aulas com sua própria mãe. Nesse caso tratava-se de uma conhecida e não tinha a menor graça conquistar uma aluna de sua mãe. Ela o queria, mas ele não mais a desejava.

Um ônibus encostou e ela subiu-lhe os degraus, fez menção de dizer adeus, mas não desferiu um gesto. O seu último ato foi um olhar bem discreto.

Ele voltou-se para o lado oposto e seguiu.

A pé.

Marcos André Carvalho Lins é
bacharel em Direito formado na Universidade Federal de Pernambuco e ocupa o cargo de Técnico Judiciário Federal no TRT -6a Região (Pernambuco), sendo também escritor diletante

Dois contos e um imprevisto


Carta de amor

Acordei certa noite com um barulho estranho. Era a vida fazendo ruído no assoalho da sala.
Com a lanterna fui até lá; ficamos um instante nos entreolhando.
Ela pediu-me apenas uma carta de amor: de amor à vida , pelo amor de Deus!
Curioso, só agora me dei conta de que nunca escrevi cartas de amor!
Concentrei-me e comecei a rascunhar numa folha de papel; o que colocar numa carta à vida?
Aguardava minha mente se abrir e algo brotar, não sei de onde.
Não há como colocar verbos na vida; é como colocar arreios em cavalo chucro, é como contemplar o vazio pela ordem inversa. Não da ótica de quem vem, mas pelos olhos de quem vai.
Esquisito desafio a esta altura: não sabia, mas já estava moribundo; minha vida se esvaía como um milésimo de segundo.
Era o último pedido que receberia; logo da vida, não poderia negar-me a realizá-lo!
Ela, a vida, concedeu-me uns instantes a sós para meditar sobre o libelo.
Ouvi por minutos o passado sorrir, senti o pranto do futuro; já estava, entretanto, seguro de onde e para onde começar.
Contaria primeiro da minha mãe, afinal amar a mãe é por onde se inicia a amar a vida.
Tratei , então, do meu pai; o que dizer de modo tão irreflexo daquele?
Passei a detalhar irmãos e amigos.
Nesse momento, a voz da vida me deteve; eu precisava apenas me escutar, disse-me
Somente mais tarde iria descobrir o que é amar a vida. Numa cama de hospital, muito mal, encontrei novamente a vida. Na mesa de cirurgia.
Ela interveio; escutai , disse-me.
Eram as derradeiras batidas do meu coração; prestei bem atenção e compreendi.
Se a mim, todos os dias, chegassem aos ouvidos os meus próprios pensamentos, um a um, e, percebendo-os como últimos e, ao mesmo tempo, próximos, com eles minha mente se ocupasse sem pressa , sem reservas, assim eu passaria a amar a vida!
A vida é um mero instante de compreensão de nós mesmos. É o fazer de tudo para tornar o tudo absoluto e não conseguir.
A vida é uma viúva de luto implorando uma ode de amor.


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Espelhos

Jogada na cama, sem qualquer preocupação maior com o espelho, que acabara de quebrar, ela se alienara das coisas terrenas. Enveredara por sonhos e metas, projetos que pretendia cumprir naquele ano que se iniciava.

Tinha-se por gorda, embora seu namorado a admirasse com cada quilinho a mais do seu corpanzil de um metro e oitenta. Também se tinha por feia, desajeitada e não ia com “os cornos do seu nariz”. Freud explica. Dizia sua colega de trabalho a quem era mais chegada e com a qual dividia o mesmo teto.

Aqueles alguns metros quadrados de moradia custavam os “olhos da cara”, se não fosse sua amiga de um ano e dois meses de firma , além de ficar maluca naquele cubículo também não pagaria o aluguel. Naquele exato instante, seu pensamento adornava-lhe a memória com o que de melhor tinha para lhe oferecer: a sua infância.

O ano vindouro seria de realizações, a sua mãe bem dizia que é de menino que se torce o pepino( ou algo parecido). Pois é, ela era agora mulher feita e desempregada, não mais aquela garotinha que vendia castanhas e usava os trocados para comprar papel de carta e estampas adesivas. Sempre desejando além. Sempre discordando do seu pai que lhe dava apenas o suficiente. Não tinha a estirpe nem as posses de suas amigas, mas fazia esforço para parecer semelhante dentre elas. Não fora enjeitada, é fato, mas não raro era preterida, mesmo se utilizando de todo seu arsenal de bajulações.

Sabe do que mais ? Foi bom para ela ter crescido. Não necessitava mais ser uma gordinha simpática com nariz antipático. Agora era uma gordinha antipática com nariz antipático. Mas seu namorado gostava do seu nariz. Também é fato.
Naquele ano teria que sair um casamento. Imaginava-se de noiva, olhando todos por cima, com a marcha nupcial soprando para longe suas mazelas diárias e seus desassossegos de final de mês, quando o dinheiro parecia querer fugir pelo tênue espaço entre um dia e outro.

Com o olhar fixo na parede vazia, ela mergulhava nos seus sentimentos. Meu deus, o que estava a fazer? Iria casar sem amar o seu namorado, sem amar nem a si mesma. Almejava apenas insurgir-se contra aquela vidinha de merda que levava. Pagar as contas. Sumir do mapa. Mostrar para as amigas de outrora que era uma gordinha antipática, mas rica. Realizar uma cirurgia plástica, parar de tomar chás de camomila para dormir e finalmente chegar ao topo. Mas a que preço ?

Com a precisão de uma mariposa aproximando-se da luz , deixou o quarto e desceu as escadas. No lado de fora um frio de rachar trazia-lhe a certeza da decisão que haveria de tomar. Encostou-se num orelhão:

-Alô, Juquinha, tô te esperando às nove. Um beijo.

Colocou algumas peças de roupa numa valise e escreveu um bilhete.

“ Cara amiga. Não tenho o dinheiro para o aluguel deste mês. Vou passar uns tempos com o Juquinha na casa dele. Por favor, invente uma estória pro Antenor. Pode ser aquela mesma da mãe doente.A aliança, no retorno eu decido se devo ou não devo. Você sabe.

Até breve. Cuide do Antenor para mim. Você sabe.
Eu sempre soube.
Bye.”

O que ela não poderia prever era a embriaguez do Juquinha e a sua visita precoce ao paraíso.


____________________________________________________

III


FECHA A PORTA.
LEVA CONTIGO A DESILUSÃO
O SONHO AFASTA A ESCURIDÃO E PASSA
INFINITA MASMORRA DOS SENTIMENTOS
ESQUISITOS

ESQUISITA DOR QUE NÃO DÓI
APENAS ABSORVE A SORTE
DIVULGA A MORTE

ABRAÇO ESQUISITO DA SAUDADE
QUE LATEJA
TÃO ESQUISITO QUANTO A FERIDA
QUE NÃO SE ABRE AO VENTO

MEDIDA DE UMA COLHER DE CHÁ
DE PENSAMENTO
ESQUISITOS PENSAMENTOS
QUE PENSAM APENAS EM SI MESMOS

O BERÇO QUE RANGE
É APENAS O DEITAR-SE DE UM CORAÇÃO
PARTIDO

NINGUÉM OUVE
O RANGER ESQUISITO

APENAS UMA LÁGRIMA DISCORDA
SE ABOLETA ENTRE AS BOCHECHAS
PREGUIÇOSAS
E CRISTALIZA...


Marcos André Carvalho Lins é
bacharel em Direito formado na Universidade Federal de Pernambuco e ocupa o cargo de Técnico Judiciário Federal no TRT -6a Região (Pernambuco), sendo também escritor diletante

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Viajei, Terra, Mensagem. (José Dagostim)
Tudo Mudou Em Nós , Viver, À Meia-Luz Do Abajur Lilás. (Brigitte Luiza)
A ninhada, Rua, Loucura.(Oterrab Filo)
Ternura, Sinopse, O dia. (José Dagostim)
“Misteriosamente”, “Imprescindível Noite Do Ser”, “Ah! Esse Coração” (Brigitte Luiza)
Teu dolo, Poesia barata, Deus Grego (Oterrab Filo)
Miragem, Elementos, loucos e Loucos. (José Dagostim)
Lamúria
Ventania, Silêncio Raro, Disfarce (Brigitte Luiza)
Poemas de Brigitte (Acontece Que, Quantum Satis , Noite Fria)
Aurora, DA FARRA FILOSÓFICA, Travessia, RAIO XIS (Jesus)
Porta-bandeira, Suicídio empírico, Circunda
O silêncio, Gestos de busca, LUTO, ESTRELAS NUAS.
Ser humano, SER, APENAS AMAR, Beneditas
A fonte (Infância, Interfaces, Tiro no escuro)
Receita de ano novo
Feliz...
No princípio
Urbe
Valeu, Leandrão!!!
Saudades
Cosmo
Para ti
A rosa e o vento

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Viajei, Terra, Mensagem. (José Dagostim)



Viajei

Sorvi
na
irregularidade
das
cores,
nos
coloridos
amores
e
na
índole
da
história... 

___________________________________________________


Terra

Amante
Na brisa do sul respiro a fragrância das flores primaveris. No pulsar dos tambores marcha a temperatura na trilha do destino. Amante com o ofegar da terra vai à existência...

Curadora
Tateando as folhas do teu corpo, sinto a história suspirar em encanto. Marcho forte no chão da vereda e te acolho num cingir curador...

Artesã

Lança as sementes no solo. Cultiva o germinar nas estações. Explode a diversidade em tons e formas. É a feitiço das flores; dos amores... Vai à arte do artesão amanhar a obra da biografia...

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Mensagem

Foi em tua teia
que amordaçado amanheci

Foi em teu pélago
que afogado mergulhei

Foi com teu avesso
que me avistei

Foi compartilhando
que nos amamos...

Foi na travessia do acaso
que encontrei os versos...

Uni Verso


José Dagostim
Cricíuma/SC - Brasil, 43 anos
Recanto das Letras.
Link:recantodasletras.uol.com.br/
autor.php?id=36684


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Teu dolo, Poesia barata, Deus Grego (Oterrab Filo)
Miragem, Elementos, loucos e Loucos. (José Dagostim)
Lamúria
Ventania, Silêncio Raro, Disfarce (Brigitte Luiza)
Poemas de Brigitte (Acontece Que, Quantum Satis , Noite Fria)
Aurora, DA FARRA FILOSÓFICA, Travessia, RAIO XIS (Jesus)
Porta-bandeira, Suicídio empírico, Circunda
O silêncio, Gestos de busca, LUTO, ESTRELAS NUAS.
Ser humano, SER, APENAS AMAR, Beneditas
A fonte (Infância, Interfaces, Tiro no escuro)
Receita de ano novo
Feliz...
No princípio
Urbe
Valeu, Leandrão!!!
Saudades
Cosmo
Para ti
A rosa e o vento
Toda saudade que existe
Ser grande
Latifúndio